Há duas suspeitas recorrentes no debate brasileiro sobre multinacionais. A primeira é que os grupos brasileiros que se internacionalizam deslocam empregos e lucros para fora. A segunda é que os grupos estrangeiros extraem valor do país sem contribuir tributariamente na mesma proporção.
ReproduçãoOs dados agregados de Country-by-Country Reporting (CbCR) do ano fiscal de 2023, divulgados pela OCDE em julho no Corporate Tax Statistics 2026, não se ajustam bem a nenhuma das duas caricaturas. Nos grupos cuja controladora final é residente no Brasil, 83% dos empregados, 74% dos ativos tangíveis e 90% do lucro antes do imposto estavam no país. Na direção inversa, os grupos estrangeiros respondem por 52,1% do imposto corrente reconhecido pelas grandes multinacionais no país, embora representem cerca de 31% dos ativos tangíveis e das receitas com terceiros.
Os números não provam conformidade nem medem evasão. Mas mudam a pergunta.
Quem está nesses dados
O CbCR nasceu da Ação 13 do projeto Beps e alcança apenas grupos multinacionais de grande porte. No Brasil, a IN RFB 1.681/2016 dispensa da declaração país-a-país, entregue no Bloco W da ECF, os grupos cuja receita consolidada no ano anterior tenha ficado abaixo de R$ 2,26 bilhões, quando a controladora final é residente aqui, ou de 750 milhões de euros, quando está no exterior. É o mesmo piso adotado internacionalmente.
Cada grupo obrigado declara, jurisdição por jurisdição, quantas entidades mantém, quantas pessoas emprega, quanto fatura com terceiros e com partes relacionadas, quanto lucro apura, quanto imposto reconhece e paga, e quais atividades exerce. As declarações circulam entre administrações tributárias sob sigilo. O que a OCDE publica são estatísticas agregadas e anonimizadas construídas a partir delas.
O universo, portanto, não é o das multinacionais em geral, mas o das maiores. E o dado agregado não identifica contribuinte, não mede evasão e não prova irregularidade: ele mostra distribuições, e um desalinhamento estatístico é uma pergunta a investigar, não uma conclusão.
Um aviso adicional de leitura: cada seção adiante compara partes de um conjunto diferente, e indico em cada uma qual é a base.
Direção um: as brasileiras no mundo
O Brasil aparece com 112 CbCRs e abertura individual para 36 jurisdições. Nesse retrato de 2023, a base doméstica era claramente predominante, como mostram os 83%, 74% e 90% citados acima.
SpaccaA comparação seguinte usa como base os subgrupos com lucro positivo e imposto corrente não negativo, que a OCDE distribui em duas faixas conforme a razão entre imposto e lucro fique abaixo ou acima de 15%. Subgrupos com prejuízo, ou com lucro positivo e imposto negativo, aparecem em categorias próprias, fora dessa comparação.
A faixa de baixa tributação reúne 49,1% do lucro do conjunto. Para medir a atividade correspondente, construo um índice simples de presença operacional: a média das participações da mesma faixa em empregados, ativos tangíveis e receitas com terceiros. O resultado é 56,3%.
A diferença entre as duas participações é o que chamo de gap entre lucro e presença operacional. Quando o lucro se distribui na mesma proporção que pessoas, instalações e vendas, o gap fica perto de zero. Quando o lucro se concentra onde há pouca atividade, o gap é positivo. Quando acontece o contrário, é negativo.
Para os grupos com controladora brasileira, o gap é de menos 7,2 pontos percentuais: a faixa pouco tributada tem proporcionalmente mais presença operacional do que lucro. Entre as 36 jurisdições-sede com pelo menos 25 CbCRs, é o sexto menor.
A imagem não é, portanto, a de lucros pouco tributados apoiados em estruturas leves. A mesma faixa concentra 63,8% dos ativos tangíveis e 53,5% dos empregados, com razão imposto-lucro de 5,6%, contra 25,7% na faixa acima de 15%. O CbCR, contudo, não revela se a baixa tributação decorre de incentivos, créditos, prejuízos acumulados, diferenças temporárias ou outros fatores.
O agregado também pode compensar situações opostas. Os dados registram à parte a categoria de subgrupos com lucro positivo e imposto corrente negativo: 15 grupos multinacionais, 41 subgrupos, 1.224 entidades e 207 mil empregados, com US$ 27,9 bilhões de lucro antes do imposto e imposto corrente de menos US$ 2,1 bilhões. Como cada entidade pode declarar mais de uma atividade, a base aqui são as declarações, não as entidades: serviços financeiros regulados respondem por 38% delas e holdings por 37%, cerca de três quartos em dois setores. O padrão é compatível com fenômenos lícitos, como créditos tributários, ajustes de período, ativos fiscais diferidos e reorganizações societárias. Só a desagregação setorial esclareceria o ponto.
Direção dois: estrangeiras no Brasil
A amostra cobre 33 jurisdições-sede que abrem o Brasil individualmente. Ela alcança 2.448 grupos estrangeiros, 9.084 entidades brasileiras e 3,5 milhões de empregados, com US$ 778,7 bilhões de receita, US$ 63,0 bilhões de lucro antes do imposto e US$ 16,6 bilhões de imposto corrente reconhecido.
Tomando como base tudo o que as grandes multinacionais registram no Brasil, nacionais e estrangeiras somadas, as estrangeiras respondem por 52,1% do imposto corrente, com cerca de 31% dos ativos tangíveis e das receitas com terceiros.
Em comparação indicativa da própria OCDE, o imposto corrente reconhecido nos CbCRs equivale a aproximadamente 40% da arrecadação brasileira de tributos sobre a renda corporativa em 2023. Repartida essa fatia pela proporção observada, cerca de 20,8 pontos correspondem aos grupos estrangeiros e 19,2 aos brasileiros. A parcela estrangeira é limite inferior, porque nem toda jurisdição-sede abre o Brasil separadamente, e os percentuais são indicativos, porque imposto reconhecido e arrecadação efetiva têm tempos e conceitos distintos.
O mix de atividades declaradas pelas entidades estrangeiras é predominantemente operacional: vendas, manufatura e serviços a terceiros somam 58,8% das declarações, que podem ser múltiplas por entidade e não medem valor econômico. Entre os grupos brasileiros, o topo da mesma lista traz holdings e serviços financeiros regulados.
Assimetrias bilaterais
Um último indicador muda a base outra vez. Para cada país-sede, tome tudo o que suas multinacionais operam fora de casa e chame esse portfólio externo de base. Pergunte quanto o Brasil representa do lucro dele e quanto representa de sua presença operacional. A diferença entre os dois percentuais é o gap bilateral.
Valor positivo significa que o Brasil rende ao grupo mais lucro do que sua operação aqui, medida em pessoas, ativos e vendas a terceiros, faria supor. Valor negativo significa o contrário: o país pesa mais na atividade do grupo do que no seu resultado.
O Brasil é lucro-intensivo nos portfólios do Japão, cujos grupos registram aqui 9,4% de seu lucro externo com apenas 1,6% de sua presença operacional externa (gap de mais 7,8 pontos), da China (mais 6,4), de Luxemburgo (mais 4,6) e do México (mais 4,6). É presença-intensivo nos da Itália (menos 4,2), dos Estados Unidos (menos 2,4) e da França (menos 1,6).
A razão entre imposto corrente e lucro, ambos medidos apenas nas operações brasileiras, também varia mais do que se supõe: 51,6% para grupos britânicos, 34,4% para americanos e alemães, 26,9% para japoneses, 14,1% para chineses. Composição setorial, ciclo de investimento e regimes específicos explicam parte dessa dispersão, e nada nela, isoladamente, indica irregularidade.
Por que os números importam
O Adicional da CSLL, instituído pela Lei 15.079/2024 segundo o padrão GloBE, produz seus primeiros efeitos agora. O CbCR serve para triagem, não para calcular o adicional: a razão entre imposto corrente e lucro não equivale à alíquota efetiva GloBE, apurada com ajustes próprios. É, ainda assim, a principal base pública para identificar, de forma aproximada, portfólios que merecem atenção diante do piso de 15%.
A Lei 15.270/2025 instituiu a retenção sobre lucros e dividendos remetidos ao exterior, com crédito quando a carga combinada ultrapassa parâmetros legais. Calibrar seus efeitos exige conhecer tanto as remessas quanto a carga corporativa prévia das fontes pagadoras. O CbCR informa a segunda dimensão; não informa o volume das distribuições.
Há, por fim, o debate público, que costuma correr sem base empírica comum. Estes dados oferecem uma, imperfeita mas pública e replicável.
Limites
O lucro do CbCR pode conter dividendos intragrupo e efeitos de compensação de prejuízos, ganhos não recorrentes e diferenças contábeis. A cobertura por jurisdição é desigual. E 2023 foi ano de inflação alta e turbulência global, o que recomenda testar a persistência dos desalinhamentos em outras safras antes de qualquer inferência firme.
Nada disso anula o exercício; limita a força das conclusões, o que é diferente. O mapa serve para formular boas perguntas. Respondê-las exigiria os microdados individuais, que não são públicos.
*Os dados originais estão em OCDE, Corporate Tax Statistics 2026. Para quem preferir a leitura visual, os mesmos resultados aparecem em gráficos, com a metodologia detalhada, em Brazil’s Two-Way Tax Map.
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