[Desconhecido] Acréscimos a ‘Depressão em novos juízes é desafio aos gestores judiciários’

TIPO V18
Notícia
TRIBUNAL
Desconhecido
DATA
01/11/2026

Semana passada, nesta ConJur, comentei o complexo tema “Depressão em novos juízes é desafio aos gestores judiciários”. A repercussão foi boa, recebi muitas manifestações. E pude constatar que o problema vai muito além dos juízes. Exemplifico.

Em um estado do sul do país, uma conhecida universidade colocou uma rede protetora no terceiro andar, para evitar suicídios. Em uma cidade do interior, com bom padrão socioeconômico e cultural, o suicídio de jovens vem aumentando consideravelmente, pondo em estado de choque a sociedade. Em uma de suas comarcas, um jovem promotor cometeu suicídio, algo surpreendente, considerando tratar-se de um dos mais atraentes cargos públicos da República.

Nesta coluna, torno ao assunto não apenas pelo interesse despertado, como também pelo tamanho do problema, sempre ausente nos noticiários, porque: a) não interessa aos gestores públicos divulgar algo negativo, que poderá desgastá-los politicamente; b) aos meios de comunicação, não interessa transmitir notícias tristes que não serão acessadas; c) as famílias dos que decidiram pôr fim à vida evitam divulgar a ocorrência.

Nesta coluna retorno ao assunto, porém, tal qual na anterior, com foco nos magistrados iniciantes. Vejamos outros motivos que possam levá-los à depressão, considerada o mal do século.

Distância do habitat

Vivemos a época dos que prestam concursos em diversos pontos do território nacional, sequiosos de assumir as funções para as quais se preparam por anos. Nada de errado nisso, ao contrário, merecem elogios, pois revelam segurança e determinação na busca de seus ideais.

O problema é que, por vezes, a mudança é radical. Sair de uma capital no litoral do Nordeste para o interior do Rio Grande do Sul, ou de uma cidade de população predominantemente alemã de Santa Catarina para o interior do Maranhão, são mudanças abruptas. Costumes, sotaque, cultura, tudo absolutamente diverso. Retornar para ver a família é caro e complexo por diversos fatores. Tais fatores vão produzindo o chamado banzo, expressão oriunda dos escravizados para expressar a profunda melancolia, decorrente da saudade da terra natal. Se para uns é fácil suportá-la, pois buscam amoldar-se ao sistema local, para outros isso é difícil, quase impossível. Daí para a depressão é um passo.

Educação excessivamente protetora

A educação dada pelos pais nos últimos 20 anos é extremamente protetora dos filhos. Nas classes média e alta muitos vivem dentro de uma bolha, cercados por muros de condomínios, levados de automóvel para a escola, clube, aulas de inglês, a maioria jamais andou de ônibus ou caminhou pelo centro da cidade. Há os que nem sabem que existem moradores de rua. Interesses contrariados na escola, por vezes até na faculdade, clube e locais assemelhados, são defendidos pelos pais e não pelos filhos. Esses e outros procedimentos semelhantes resultam em jovens despreparados para os revezes da vida. À primeira cobrança, oposição, advertência do empregador ou superior hierárquico, desabam.

Vladimir Passos de Freitas [Spacca]Spacca
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Na magistratura, apesar do elevado conhecimento que os levou à aprovação, não suportam a rejeição social quando soltam um traficante com enorme quantidade da droga, apesar de terem citado doutrina alemã sobre o respeito aos direitos e garantias individuais. Menos ainda quando o corregedor lhes faz exigências, pois, afinal, deles nada foi exigido, tudo foi dado ou discutido sem que lhes fossem expostas as consequências.

Procura de terapia, juízes e juízas

Não é fácil ao juiz expor-se a qualquer problema e, da mesma forma, assumir a depressão e buscar tratamento. Primeiro, porque ela às vezes chega dissimulada pela ansiedade ou como uma passageira tristeza. Segundo — e aqui o mais importante — o juiz deve demonstrar segurança e autoridade para ser respeitado pelos advogados, agentes do MP, servidores e demais partícipes do sistema. Principalmente no interior, onde sua vida é do conhecimento de todos e frequentemente motivo de comentários. Assim, teme revelar-se depressivo e ser visto como fraco.

Esse sentimento, muito embora compreensível, não pode preponderar sobre a saúde mental. Não há vergonha alguma em sentir-se depressivo e evitar o tratamento para aparentar força pode ser uma péssima opção

Um fato curioso merece registro. As mulheres não se acanham na busca de terapia. Afinal, não foram educadas para o confronto. O receio maior é dos homens, quiçá por um temor maior de serem vistos como fracos. É compreensível. Mas essa não é a melhor opção, pois a demora pode agravar a situação e levar a um caminho sem volta.

Ausência de vida espiritual

Nas últimas décadas um expressivo número de casais optou por afastar-se da vida espiritual e, consequentemente, não a transmitir aos seus filhos. Descrença diante de algumas notícias na mídia, dúvidas pessoais sobre a veracidade da doutrina ou simplesmente comodismo podem tê-los levado a tal conclusão. É posição a ser respeitada e jamais discutida, pois está na esfera privada de cada um.

Mas, se isso é verdade, verdade é também que quem tem uma crença consolidada suporta com mais força os revezes da vida. E estes vêm para todos, cumprem a regra da não discriminação com perfeição, sem necessidade de estar prevista na Constituição. Os que em nada acreditam tendem a preocupar-se mais com os bens materiais e, quando a situação difícil surge-lhes à frente, não têm o consolo e o suporte que a crença dá. A fé é reconhecida, inclusive, na cura de doenças, como revelam as considerações feitas em artigo de Célia Maria Dias Madruga no site do Conselho Federal de Medicina, inclusive citando Einsten que afirmou: “Quanto mais acredito na ciência, mais acredito em Deus” [1].

Apoio das associações

O tribunal não é o melhor órgão para dar suporte ao magistrado depressivo. Além de eventualmente ter que punir o juiz, se demonstrada a inexistência ou a simulação da depressão, o fato é que a estrutura formal e hierárquica não torna o lugar adequado a confissões de problemas pessoais.

Na verdade, as associações de magistrados são o local mais adequado. Nelas o magistrado sente-se mais seguro em relatar os seus problemas pessoais e o fato de não ser órgão estatal dá mais liberdade à associação para eventual contratação de pessoa especializada ou outras medidas administrativas.

Quando me refiro a associações, estou a falar das locais e não das nacionais. Estas, AMB, Ajufe e Anamatra, têm o encargo de enfrentar os grandes temas de interesse da classe, como, por exemplo, a reforma do Judiciário que se anuncia. Por isso e pela distância dos juízes e da possível ignorância ds peculiaridades do local em que exercem suas funções, terão dificuldades na gestão dos problemas. Já as dos estados, as Anamatras ou a regionais federais estarão mais habilitadas a cumprir referido papel. A Amajum, dos juízes federais militares tem situação especial, porque é nacional e única.

Conclusão

As considerações aqui feitas, em adição ao artigo da semana passada sobre o mesmo assunto, têm a esperança de terem contribuído de alguma forma na solução de um problema da atualidade e com tendência de crescer.

 


[1] MADRUGA, Célia Maria Dias. Importância da fé na medicina. Disponível aqui.

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